sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Em Westerbork

  A minha demanda em encontrar rastos da história da Anne Frank continua. Depois de Amesterdão (juntando sempre o útil ao gradável, já vamos até lá com alguma frequência) e de Bergen-Belsen, fomos visitar Westerbork.    
   Com esta visita "matámos dois coelhos com uma só cajadada" : primeiro tive a oportunidade de conhecer mais um sítio que se entrelaça com a história da Anne; em segundo lugar, foi  uma óptima lição de história para os meus filhos - aAo contrário de Auschwitz e Bergen-Belsen, Westerbork permite a entrada de crianças, tendo, inclusivamente, programas dedicados a escolas. Que bom aprender mais sobre a história mundial desta maneira. Vieram de lá super curiosos, com vontade de saber mais. A prova de que esta viagem foi um sucesso :-)




 Westerbork foi criado pelo governo holandês aprisionar os refugiados judeus que entravam  ilegalmente na Holanda. No começo de 1942, as autoridades de ocupação alemãs decidiram aumentar Westerbork e torná-lo num campo de trânsito para judeus. Dali os judeus eram deportados para outros campos de concentração, tais como Bergen-Belsen, Auschwitz e Sobibor. Entre 1942 e 1945 passaram por ali 107 mil  judeus. 


   Por aqui passaram também alguns ciganos, que a  19 de maio de 1944, foram enviados para Auschwitz, onde foram de imediato assassinados. Settela Steinbach, a menina de lenço que aparece,  fugasmente, neste filme, ficou o rosto desse grupo e também de Westerbork.



   Apesar de ser um campo de detenção  e de trânsito, vivia-se com relativa tranquilidade e os prisioneiros sentiam-se seguros. Este "conforto" e aparente normalidade tinham o propósito de evitar qualquer problema durante a transferência para outros campos. Muitos dos prisioneiros pensavam que a condição de vida seria a mesma nos outros campos... a maldade imperava até nestes "pequenos detalhes"...  
    A ideia era que os judeus ficassem ali o menor tempo possível. Havia dentista, escolas e orfanatos , oficinas particulares de pintura, alvenaria, jardinagem, cabeleireiro, serralheiro, sapataria, óptica ou carpintaria, bem como um sistema de correio interno totalmente gratuito. Um hospital completo, com cerca de 120 médicos e 1.000 trabalhadores da saúde atendiam as 1.800 camas hospitalares, incluindo maternidade, laboratório e farmácia. Havia grupo coral, grupo de teatro e até uma orquestra.
     Artigos de higiene pessoal, brinquedos e plantas poderiam ser comprados no armazém do campo. Muitos dos artigos tinham sido confiscados a outros judeus. Tal como acontece com alguns outros campos de trânsito, Westerbork tinha sua própria moeda.








   O transporte para os outros campos de concentração era feito todas as semanas, às terças-feiras,. No total, 93 comboios transportaram judeus e ciganos para um futuro incerto…  O transporte de prisioneiros parou a 13 de setembro de 1944.

                         


   Actualmente, já nada resta do campo de Westerbork. O Herinneringscentrum Kamp Westerbork (Centro de Memória do Campo Westerbork) foi ali instalado para existe para perpetuar a memória dos que perderam a vida.




   Uma exposição permanente conta-nos a história do campo e dos prisioneiros: muitas fotografias do quotidiano, documentos, desenhos, pinturas, imagens, mapas e outros objectos de Westerbork ajudam a que esta vista se torne uma verdadeira aula de história:



















 
É possível visitar o espaço ocupado pelo antigo campo de trânsito – o campo dista do museu 3 km. Só é possível percorrer esse caminho a pé, de bicicleta ou através de um autocarro  que sai do Centro de Memória. 






O vagão e as cartas lançadas ao vento

 








102.000 pedras


   Muitas  pessoas foram deportadas do campo de trânsito de Westerbork. 102.000  não regressaram.
Em sua memória, e graças à iniciativa de vários ex-prisioneiros, foi erigido um monumento com  102.000 pedras
   Para muitos sobreviventes, não há restos de seus parentes, amigos e conhecidos, pois não há nenhum local de repouso ou lápide conhecido. As 102.000 pedras acabam por ser uma "referência" directa ao seu ente querido.
   A ideia é deixar claro quantas pessoas foram assassinadas, enfantizando pessoas individuais: 102.000 vezes uma mãe, um pai, um filho, uma filha, um irmão, uma irmã ...
     As pedras estão  organizadas uniformemente dentro de um mapa da Holanda.
    O grupo de ciganos deportado e assassinado em Auschwitz também aqui é homenageado com 213 pedras marcadas com uma chama no topo, bem assim como os combatentes da resistência que foram presos em Westerbork antes de serem deportados e assassinados. Por esses, foram colocadas 100 pedras sem marca. 

   Encontrei um pequeno vídeo no youtube, caso queriam ver mais um pouco deste monumento.








Memorial


 
  A estrada de ferro fica no mesmo lugar que o caminho-de-ferro original, que foi removido após a guerra. Foi concebida por Ralph Prins, um ex-prisioneiro de Westerbork.
Os trilhos dobrados e torcidos, como braços levantados não apenas em angústia, mas em protesto, simbolizam a consternação e a perplexidade perante de tudo o que aconteceu com o povo judeu.  







 À distância, a a parede de pedras - semi-circular, ligeiramente inclinada para a frente e superior ao comprimento de um homem - assemelha-se a uma pilha de crânios. Junto dela, duas lajes exibem um texto do Antigo Testamento:

"(... ) Espiaram os nossos passos, de maneira que não podíamos andar pelas nossas ruas; está chegado o nosso fim, estão cumpridos os nossos dias, porque é vindo o nosso fim (...)"
(Lamentações 4:18)



A casa do Comandante 

  Quando Westerbork passou a ser um campo de trânsito, o comandante instalou lá a sua residência oficial. 
  A casa de campo do Comandante Gemmeker é o único edifício original da altura. Por estar em muito mau estado, encontra-se protegida por uma redoma de vidro, para estar protegida das condições climatéricas e da deterioração.





    E como é que Westerbork e a Anne estão ligados? como sabem, a Anne e os restantes habitantes do Anexo foram presos a 4 de agosto de 1944 e 8 de agosto de 1944, foram enviados para Westerbork.  Ali chegados, são mandados para o barracão da punição, como castigo por não se terem entregue de forma voluntária. Os prisioneiros no campo de Westerbork têm que fazer todo tipo de trabalho sujo, como desmontar baterias. 
Anne permaneceu ali pouco tempo: os 8 detidos faziam parte da lista do último comboio que saiu de Westerbork para Auschwitz, a 3 de setembro de 1944. Mais uma partida do destino... 




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